segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Bach...

Sempre gostei muito de Bach. Suas composições tem o poder de fazer aflorar em mim as boas recordações, os bons livros, as pessoas queridas.

Sempre que estou muito feliz ou muito triste ouço Bach. Faz-me lembrar do que sou e do que realmente importa na vida... E muito coisa importa na vida...

O fato de ter ouvido Bach o final de semana inteiro e o resto da tarde e noite da segunda revela um pouco do meu atual estado de espírito... Saudade, tristeza, alegria... Tudo junto e dando voltas no meu ser...

Espero ouvir Bach por muito tempo ainda...

Benedito Nunes, Magno Sábio

por Amarílis Tupiassu




É sempre difícil verbalizar a desmesura. A dificuldade aflorou ante a extensa produção de Benedito Nunes, ao escrever sobre um homem de mente viva, profusa, devotado, serenamente, ao saber, à inquirição do ser em sentido universal. Este foi seu ofício ininterrupto, desde que, ainda quase menino, terminou o então ginasial, entre 1941 e 1948, no Colégio Moderno em Belém.

Benedito Nunes e as mais rígidas definições de sábio andam juntos, reiteram altas mentes do Brasil e de outros países, onde floresce sua obra do sábio paraense. Especifico a obra escrita, pois Benedito teve uma obra oral, suas aulas, conferências, debates, entremeados de intervenções momentâneas, espelho de argúcia intelectiva, infelizmente não gravada, a lição do sábio. Ele lega a quem não usufruiu de sua docência, sua escrita tersa, aguda, excelentemente bem urdida que testemunha o rigor, o viço intelectual, admirável saber, sua mente atilada, exemplar. Benedito foi acabado modelo de sabedoria. Poucos se ajustaram, de modo tão resoluto e intransigente, às exigências do estudo e do ensino que frutifica em marcas perenes no discípulo. Sua escrita atrai e excita, desarma os ardis do falso, insufla e disseca o real para que aflore a verdade mais provável.

No caso dele, é fácil atestar. Tomo levantamento de sua obra, feito por Vitor Sales Bentes, um de seus discípulos. E constato: Benedito Nunes só queria saber de saber. Depois da debulha, não recolhia a fruta, que outras leiras de saber o aguardam. Por isso, louvo Célia Jacob, coordenadora de Letras da Unama, que editou um número da revista “Asas da Palavra” todo voltado à obra do mestre. E ao Vítor Bentes que trabalha, junto a editoras brasileiras por dar a público sua obra.

Conto seus livros. Vinte e cinco. Os publicados e os a publicar, a maioria, por editoras de fora do Pará. Todos essenciais à ampliação do saber filosófico, literário, das artes em extensão universal, sem que o filósofo descure da fortuna e do infortúnio de sua região amazônica tão nublada por desconsertos. Há ainda cento e setenta e três estudos profundos, de têmpera irrepreensível. E livros organizados por ele, e colaborações em livros nacionais, e as principais colaborações em livros estrangeiros. E ele ainda se dedicava a traduções. Isso está explicitado na Asas da Palavra em que docentes amazônidas e de universidades brasileiras estudam as idéias e o pensamento de Benedito.

Admirável sua dedicação ao saber. Admirável sua obra votada ao pensar, o filósofo desdobrando-se desde as eras remotas da filosofia, ele a perscrutar e inquirir. Sua mente era tal se colasse o ouvido no tempo para sentir as palpitações vivas de Homero, p.ex., para já escutar às vozes da filosofia nas nascentes e crescentes. Num átimo, toma outros rumos, exulta com a palavra de Clarice Lispector, encanta-se por Drummond, vigia com ardor a heteronímia pessoana, finca os olhos nas veredas rosianas, passeia com Camilo Pessanha, com Camilo Castelo Branco e abisma-se com a agudeza ideativa de Heidegger, de Nietzsche. Ao mesmo tempo, está aqui e longe com seu filtro de palavras, e decanta, enlaça saberes aparentemente estanques. Não sossega. Fita as chuvaradas dos campos floridos, e também famintos, os de Dalcídio Jurandir. E segue com Max Martins, Ruy Barata, Paulo Plínio, com Haroldo Maranhão e Francisco Paulo do Nascimento Mendes, todos interlocutores reais nas cogitações estético-filosóficas. Admirável como Benedito move sua fundição de saberes, tanto que filosofia, crítica estética e um vário lastro de conhecimento conformam o esplendor de sua especulação.

Recordo um quadro terno. Estamos em volta de uma mesa na Editora da UFPA, Benedito Nunes, Vitor Bentes e a editora Laís Zumero. Falávamos da edição de “Do Marajó ao arquivo: breve panorama da cultura no Pará”. Eu tinha dois volumes de livro lindos (literatura e arte) de uso em liceu da França. Benedito Nunes bate com os olhos nos livros. E enternece o bendito sábio-infante, alumbrado, sorridente, virando as páginas, o brilho do olhar, só cintilações sobre a primorosa iconografia. Ele comenta, passa de leve as mãos nas páginas para sentir-lhe a textura, sorri embevecido, distraído, esquecido da reunião. Foi rápido na montagem de uma como que cerca invisível onde se refugiou para saborear a descoberta. Mas precisou emergir. Fechou os volumes, os livros sob as mãos do menino Bené. À saída, já de pé, agarrava os volumes. Ele tinha o seu quê tímido. Não se conteve, porém: “De quem são estes livros?” “- Meus, Bené, respondi.” “ - Me empresta?” E lá se foi, ledo e fagueiro. A fascinação por livro penetrava a carne e os poros de sua escrita jamais banal, toda profundidade. Rara, sua agudeza mental. Um bendito comedor de livros, um magno, infinito sábio.

Texto extraído de saudação proferida, em 23 de novembro de 2009, quando o Professor Benedito Nunes recebeu o título de professor Honoris Causa pela Unama.

AMARÍLIS TUPIASSU é professora. O artigo está públicado na página 11 do primeiro caderno de O LIBERAL, edição de hoje.
 
Fonte: Blog Espaço Aberto
 
 

Uma Nota Triste...




Já disse que domingo não foi um dia fácil. Os grandes estão nos deixando. A manhã chuvosa do último domingo anunciou outra perda inestimável a do nosso querido Benedito Nunes.

Reconhecido internacionalmente, Benedito Nunes morreu aos 81 anos de idade deixando o legado de uma vida dedicada inteiramente a filosofia, a literatura e aos livros. Certamente, não existem palavras para descrever a contribuição de Benedito para a cultura nacional.

O mundo literário e acadêmico se comprimiu um pouquinho mais com a perda deste nosso grande conterrâneo e apaixonado por está terra paraense.

Obrigada Grande Mestre Benedito Nunes... Obrigada...

E, com tristeza, adeus...



Belém, 21.11.1929

Belém, 27.02.2011


Uma Nota Triste...




"Acredito, sim, em inspiração, não como uma coisa que vem de fora, que "baixa" no escritor, mas simplesmente como o resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas — o sonho, por exemplo. Mas só inspiração não é suficiente"

  Moacir Scliar


Esses últimos tempos não tem sido fáceis. Apenas agora sento para redigir essas pequenas palavras sobre esta triste onda que se abateu sobre mim ontem. Escrevo-as ao som de Bach... Moacir Jaime Scliar partiu na madrugada de ontem...

Eu tinha 14 anos quando pela primeira vez li um conto de Scliar. Naquela época, auge da minha devoração de obras, eu lia livros e mais livros e se não me lembrassem que eu devia comer eu não comia e um detalhe importante: eu só ouvia música erudita e de preferência Sebastian Bach. Bons tempos aquele...

Gostei dos contos de Scliar e de sua obra desde o começo. E isso é preciso anotar aqui, porque ele assim como outros escritores, fez partes de minhas tardes, em que debaixo das árvores aqui de casa só havia eu e um livro. 

Hoje foi um dia de peito comprimido e de olhar marejado. A morte de ontem me afetou de uma maneira estranha. Parece que mil fragmentos de mim se soltaram no infinito e deixaram nevoentas as tardes do passado...

Há muito tempo uma menina lia um livro e o livro sorria para a menina e eram dois companheiros nas tardes em que alguns, absurdamente, chamavam vazia...

Obrigada Moacyr Scliar e, com pesar, adeus... 



Porto Alegre, 23.03.1937

Porto Alegre, 27.02.2011

Um texto de Fábio Konder Comparato


A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA


Por Fábio Konder Comparato


As rebeliões populares que sacodem atualmente o mundo árabe têm, entre outros méritos, o de derrubar, não só vários regimes políticos ditatoriais em cadeia, mas também um mito político há muito assentado. Refiro-me à convicção, partilhada por todos os soi-disant cientistas políticos, de que um povo sem organização prévia e não enquadrado por uma liderança partidária ou pessoal efetiva, é totalmente incapaz de se opor a governos mantidos por corporações militares bem treinadas e equipadas,  com o apoio do poder econômico e financeiro do capitalismo internacional

Pois bem, há quatro séculos e meio um pensador francês teve a ousadia de sustentar o contrário. Refiro-me a Etienne de la Boëtie, o grande amigo de Montaigne.  No Discurso da Servidão Voluntária, publicado após a sua morte em 1563, ele pronunciou um dos mais vigorosos requisitórios contra os regimes políticos e governos opressores da liberdade, de todos os tempos.

Seu raciocínio parte do sentimento de espanto e perplexidade diante de um fato que, embora difundido no mundo todo, nem por isso deixa de ofender a própria natureza e o bom-senso mais elementar. O fato de que um número infinito de homens, diante do soberano político, não apenas consintam em obedecer, mas se ponham a rastejar; não só sejam governados, mas tiranizados, não tendo para si nem bens, nem parentes, nem filhos, nem a própria vida.

Seria isso covardia? Impossível, pois a razão não pode admitir que milhões de pessoas e milhares de cidades, no mundo inteiro, se acovardem diante de um só homem, em geral medíocre e vicioso, que os trata como uma multidão de servos.

Então, “que monstruoso vício é esse, que a palavra covardia não exprime, para o qual falta a expressão adequada, que a natureza desmente e a língua se recusa a nomear?”
Esse vício nada mais é do que a falta de vontade. Os súditos não precisam combater os tiranos nem mesmo defender-se diante dele. Basta que se recusem a servi-lo, para que ele seja naturalmente vencido. Uma nação pode não fazer esforço algum para alcançar a felicidade. Para obtê-la, basta que ela própria não trabalhe contra si mesma. “São os povos que se deixam garrotear, ou melhor, que se garroteiam a si mesmos, pois bastaria apenas que eles se recusassem a servir, para que os seus grilhões fossem rompidos”.

No entanto – coisa pasmosa e inacreditável! –, é o próprio povo que, podendo escolher entre ser escravo ou ser livre, rejeita a liberdade e toma sobre si o jugo. “Se para possuir a liberdade basta desejá-la, se é suficiente para tanto unicamente o querer, encontrar-se-á uma nação no mundo que acredite ser difícil adquirir a liberdade, pela simples manifestação desse desejo?”

O que La Boëtie certamente não podia imaginar é que, durante os primeiros séculos do Brasil colonial, foi muito difundida a prática da servidão voluntária de indígenas maiores de 21 anos. Encontrando-se eles em situação de extrema necessidade, a legislação portuguesa da época permitia que se vendessem a si mesmos, celebrando um contrato de escravidão perante um notário público.

De qual quer modo, prossegue o nosso autor, a aspiração a uma vida feliz, que existe em todo coração humano, faz com que as pessoas, em geral, desejem obter todos os bens capazes de lhes propiciar esse resultado. Há um só desses bens que elas, não se sabe por quê, não chegam nem mesmo a desejar: é a liberdade. Será que isto ocorre tão-só porque ela pode ser facilmente obtida?

Afinal, de onde o governante, em todos os paises, tira a força necessária para manter os súditos em estado de permanente servidão? Deles próprios, responde La Boëtie.
“De onde provêm os incontáveis espiões que vos seguem, senão do vosso próprio meio? De que maneira dispõe ele [o tirano] de tantas mãos para vos espancar, se não as toma emprestadas a vós mesmos? E os pés que esmagam as vossas cidades, não são vossos? Tem ele, enfim, algum poder sobre vós, senão por vosso próprio intermédio?”

A conclusão é lógica: para derrubar os tiranos, os povos não precisam guerreá-los. “Tomai a decisão de não mais servir, e sereis livres”. Aí está, avant la lettre, toda a teoria da desobediência civil, que veio a ser desenvolvida muito depois que aquelas linhas foram escritas.

É de completa evidência, prossegue o autor, que somos todos igualmente livres, pela nossa própria natureza; e que o liame que sujeita uns à dominação dos outros é algo de puramente artificial. Mas então, como explicar que esse artifício seja considerado normal e a igualdade entre os homens não exista praticamente em lugar nenhum?

Para explicar esse absurdo da servidão voluntária, La Boëtie aponta algumas causas: o costume tradicional, a degradação programada da vida coletiva, a mistificação do poder, o interesse.

Foi por força do hábito, diz ele, que desde tempos imemoriais os homens contraíram o vício de viver como servos dos governantes. E esse vício foi, ao depois, apresentado como lei divina.

É também verdade que alguns governantes decidiram tornar mais amena a condição de escravo, imposta aos súditos, criando um sistema oficial de prazeres públicos; como, por exemplo, os espetáculos de “pão e circo”, organizados  pelos imperadores romanos.

Outro fator a concorrer para o mesmo efeito foi o ritual mistificador que os poderosos sempre mantiveram em torno de suas pessoas, oferecidas à devoção popular. O grotesco ditador Kadafi, com seus trejeitos de mau ator de opereta, nada mais fez do que reproduzir, mediocremente, vários tiranos do passado. “Antes de cometerem os seus crimes, mesmo os mais revoltantes”, lembrou La Boëtie, “eles os fazem preceder de belos discursos sobre o bem geral, a ordem pública e o consolo a ser dado aos infelizes”.

Por fim, a última causa geradora do regime de servidão voluntária, aquela que La Boëtie considera “o segredo e a mola mestra da dominação, o apoio e fundamento de toda tirania”, é a rede de interesses pessoais, formada entre os serviçais do regime. Em degraus descendentes, a partir do tirano, são corrompidas camadas cada vez mais extensas de agentes da dominação, mediante o atrativo da riqueza e das vantagens materiais.

No Egito de Mubarak, por exemplo, oficiais graduados das forças armadas ocupavam cargos de direção, muito bem remunerados, nas principais empresas do país, privadas ou públicas. Algo não muito diverso ocorreu entre nós durante o vintenário regime militar, com a tácita aprovação dos meios de comunicação de massa, a serviço do poder econômico capitalista.

Pois bem, se voltarmos agora os olhos para este “florão da América”, veremos um espetáculo bem diverso daquele que nos fascina, hoje, no Oriente Médio. Aqui, o povo não tem a menor consciência de ser explorado e consumido. As nossas classes dirigentes, perfeitamente instruídas na escola do capitalismo, nunca mostram suas fuças na televisão. Deixam essa tarefa para seus aliados no mundo político. Elas são anônimas, como a sociedade por ações. E o jugo que exercem é insinuante e atraente como um anúncio publicitário.

Por estas bandas o povão vive tranquilo e feliz, na podridão e na miséria.


Fonte: Viomundo: o que você não vê na mídia

domingo, 27 de fevereiro de 2011

George Orwell



Hoje estive relendo algumas páginas de um dos meus autores favoritos Eric Arthur Blair, conhecido pelo pseudonômio George Orwell. Revi o onipresente "Grande Irmão" e tantos outros personagens que fazem parte do mundo de distopias por ele anunciado. Acredito que boa parte das pessoas já tenha ouvido falar ou já tenham lido livros como A Revolução dos Bichos, 1984 e Moinhos de Vento que são de sua autoria. Bom para quem ainda não leu fica a dica.

Interressante lembrar que existe um filme baseado no livro 1984 e que leva, também, o nome da obra. O filme é bem fiel a obra. Vale a pena também ser assistido.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Michel Foucault e a vida não-facista


Um dos mais belos escritos de Michel Foucault...





Introdução à Vida Não-facista
Michel Foucault

Durante os anos 1945-1965 (falo da Europa), existia uma certa forma correta de pensar, um certo estilo de discurso político, uma certa ética do intelectual. Era preciso ser unha e carne com Marx, não deixar seus sonhos vagabundearem muito longe de Freud e tratar os sistemas de signos – e significantes – com o maior respeito. Tais eram as três condições que tornavam aceitável essa singular ocupação que era a de escrever e de enunciar uma parte da verdade sobre si mesmo e sobre sua época. 

Depois, vieram cinco anos breves, apaixonados, cinco anos de júbilo e de enigma. Às portas de nosso mundo, o Vietnã, o primeiro golpe em direção aos poderes constituídos. Mas aqui, no interior de nossos muros, o que exatamente se passa? Um amálgama de política revolucionária e anti-repressiva? Uma guerra levada por dois frontes – a exploração social e a repressão psíquica? Uma escalada da libido modulada pelo conflito de classes? É possível. De todo modo, é por esta interpretação familiar e dualista que se pretendeu explicar os acontecimentos destes anos. O sonho que, entre a Primeira Guerra Mundial e o acontecimento do fascismo, teve sob seus encantos as frações mais utopistas da Europa – a Alemanha de Wilhem Reich e a França dos surrealistas – retornou para abraçar a realidade mesma: Marx e Freud esclarecidos pela mesma incandescência. 

Mas é isso mesmo o que se passou? Era uma retomada do projeto utópico dos anos trinta, desta vez, na escala da prática social? Ou, pelo contrário, houve um movimento para lutas políticas que não se conformavam mais ao modelo prescrito pela tradição marxista? Para uma experiência e uma tecnologia do desejo que não eram mais freudianas? Brandiram-se os velhos estandartes, mas o combate se deslocou e ganhou novas zonas.        

O Anti-Édipo mostra, pra começar, a extensão do terreno ocupado. Porém, ele faz muito mais. Ele não se dissipa no denegrimento dos velhos ídolos, mesmo se divertindo muito com Freud. E, sobretudo, nos incita a ir mais longe.       

Seria um erro ler o Anti-Édipo como a nova referência teórica  (vocês sabem, essa famosa teoria que se nos costuma anunciar: essa que vai englobar tudo, essa que é absolutamente totalizante e tranquilizadora, essa, nos afirmam, “que tanto precisamos” nesta época de dispersão e de especialização, onde a “esperança” desapareceu). Não é preciso buscar uma “filosofia” nesta extraordinária profusão de novas noções e de conceitos-surpresa. O Anti-Édipo não é um Hegel pomposo.  Penso que a melhor maneira de ler o Anti-Édipo é abordá-lo como uma “arte”, no sentido em que se fala de “arte erótica”, por exemplo. Apoiando-se sobre noções aparentemente abstratas de multiplicidades, de fluxo, de dispositivos e de acoplamentos, a análise da relação do desejo com a realidade e com a “máquina” capitalista contribui para responder a questões concretas. Questões que surgem menos do porque das coisas do que de seu como. Como introduzir o desejo no pensamento, no discurso, na ação? Como o desejo pode e deve desdobrar suas forças na esfera do político e se intensificar no processo de reversão da ordem estabelecida? Ars erotica, ars theoretica, ars politica       

Daí os três adversários aos quais o Anti-Édipo se encontra confrontado. Três adversários que não têm a mesma força, que representam graus diversos de ameaça, e que o livro combate por meios diferentes.        

1) Os ascetas políticos, os militantes sombrios, os terroristas da teoria, esses que gostariam de preservar a ordem pura da política e do discurso político. Os burocratas da revolução e os funcionários da verdade

2) Os lastimáveis técnicos do desejo – os psicanalistas e os semiólogos que registram cada signo e cada sintoma, e que gostariam de reduzir a organização múltipla do desejo à lei binária da estrutura e da falta

3) Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico (embora a oposição do Anti-Édipo a seus outros inimigos constituam mais um engajamento político): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.        

Eu diria que o Anti-Édipo (que seus autores me perdoem) é um livro de ética, o primeiro livro de ética que se escreveu na França depois de muito tempo (é talvez a razão pela qual seu sucesso não é limitado a um “leitorado” [“lectorat”] particular: ser anti-Édipo tornou-se um estilo de vida, um modo de pensar e de vida). Como fazer para não se tornar fascista mesmo quando (sobretudo quando) se acredita ser um militante revolucionário? Como liberar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres do fascismo? Como expulsar o fascismo que está incrustado em nosso comportamento? Os moralistas cristãos buscavam os traços da carne que estariam alojados nas redobras da alma. Deleuze e Guattari, por sua parte, espreitam os traços mais ínfimos do fascismo nos corpos.        

Prestando uma modesta homenagem a São Francisco de Sales, se poderia dizer que o Anti-Édipo é uma Introdução à vida não fascista. (1)  
Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, que sejam elas já instaladas ou próximas de ser, é acompanhada de um certo número de princípios essenciais, que eu resumiria da seguinte maneira se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:        

– Libere a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante;      
 
– Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, mais do que por subdivisão e hierarquização piramidal;     
   
– Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental, por um longo tempo, sacralizou como forma do poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo, não é sedentário, mas nômade;       

– Não imagine que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga, nas formas da representação) que possui uma força revolucionária;       

– Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política, para desacreditar um pensamento, como se ele fosse apenas pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.

– Não exija da ação política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo, tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação, o deslocamento e os diversos agenciamentos. O grupo não deve ser o laço orgânico que une os indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”;       
 
– Não caia de amores pelo poder.        

Poder-se-ia dizer que Deleuze e Guattari amam tão pouco o poder que eles buscaram neutralizar os efeitos de poder ligados a seu próprio discurso. Por isso os jogos e as armadilhas que se encontram espalhados em todo o livro, que fazem de sua tradução uma verdadeira façanha. Mas não são as armadilhas familiares da retórica, essas que buscam seduzir o leitor, sem que ele esteja consciente da manipulação, e que finda por assumir a causa dos autores contra sua vontade. As armadilhas do Anti-Édipo são as do humor: tanto os convites a se deixar expulsar, a despedir-se do texto batendo a porta. O livro faz pensar que é apenas o humor e o jogo aí onde, contudo, alguma coisa de essencial se passa, alguma coisa que é da maior seriedade: a perseguição a todas as formas de fascismo, desde aquelas, colossais, que nos rodeiam e nos esmagam até aquelas formas pequenas que fazem a amena tirania de nossas vidas cotidianas.


1 Francisco de Sales. Introduction à la vie devote (1064). Lyon: Pierre Rigaud, 1609.
 * Preface in: Gilles Deleuze e Félix Guattari. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia, New York, Viking Press, 1977, pp. XI-XIV. Traduzido por wanderson flor do nascimento.

Fonte: Espaço Michel Foucault

Em Brasília, 19 horas: Pela preservação da Voz do Brasil


19 horas, mas Brasília ainda nem existia. Com a narração do locutor Luiz Jatobá e veiculado nas 50 emissoras de rádio existentes à época no Brasil, entrava no ar, pela primeira vez, em 22 de julho de 1935, o Programa Nacional, que mais tarde foi rebatizado de a Hora do Brasil e, atualmente, “A Voz do Brasil”. Com as suas três denominações, “A Voz do Brasil”, informativo de abrangência nacional sobre as atividades dos três Poderes da República é hoje o programa radiofônico em operação mais antigo do mundo. Supera, inclusive, o “Voci del Grigioni italiano” (Voz dos Grisões italianos), criado pela Rádio e Televisão da Suíça Italiana, que data de 1939 e também teve denominações distintas.

“A Voz do Brasil”, certamente poderia entrar no Guiness Book por ser o programa radiofônico de maior penetração no território nacional, sendo transmitido em cadeia por 7.691 estações, já computadas as 3.154 emissoras comunitárias legalmente em operação (e, é claro, não considerando os boicotes e desrespeitos legais que muitas delas cometem).

TRAMITAÇÃO OBSCURA


Na trajetória deste programa, que em 1938, foi rebatizado com o nome “A Hora do Brasil”, a temática nem sempre se limitou aos feitos governamentais. Houve época em que se incluía até notas internacionais, em especial sobre a Segunda Guerra Mundial. A linha editorial dos primeiros anos se baseava em três regras básicas: ser informativo, objetivo – não comentando as notícias – e não usar off, sempre citando as fontes noticiosas. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, o programa nasceu para cumprir três finalidades: informativa, cultural e cívica.

Engana-se quem pensa que “A Voz do Brasil” é fruto do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda criado por Getúlio Vargas. Embora tenha sido uma idéia do então presidente, a Voz é mais antiga do que o DIP, que nasceu em 1939, ou seja, quatro anos após Luiz Jatobá entrar com seu vozeirão nas residências de todo o país.

Em 1971, “A Hora do Brasil” se transformou em “A Voz do Brasil” e o formato existente atualmente conta com uma única edição diária, com uma hora de duração, das 19h às 20h. Os primeiros 25 minutos são dedicados aos fatos gerados pelo Poder Executivo. Os tribunais integrantes do Poder Judiciário Federal dividem cinco minutos. As duas Casas do Legislativo e o Tribunal de Contas da União partilham 30 minutos (20 minutos para a Câmara dos Deputados, 10 minutos para o Senado Federal, e o TCU tem direito a um minuto às quartas-feiras). Cada instituição é responsável pela elaboração do respectivo conteúdo.

Programa mais antigo do país é também o menos querido pela Abert – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. Embora pesquisa do instituto Datafolha, feita em dezembro de 1995, informe que 88% dos brasileiros com idade acima de 16 anos conhecem o informativo, e que mais da metade dos ouvidos aprovava que a sua transmissão seja obrigatória pelas emissoras de rádio do Brasil, a Abert luta para pôr fim a essa obrigatoriedade. Durante muito tempo, a estratégia da entidade representativa dos donos da mídia foi se valer de medidas judiciais para liberar a obrigatoriedade da transmissão. Depois que o assunto foi enterrado de vez pelo Supremo Tribunal Federal, acatando como justa e legal a obrigatoriedade da veiculação, os donos de rádio e TV atacaram via Legislativo.

Valendo-se do período eleitoral, quando o parlamentar não quer brigar com a mídia e o cidadão está com a atenção mais voltadas para a eleição, foi aprovado no Senado Federal um projeto de lei da deputada Perpétua Socorro (PCdoB-AC) que, em sua última versão, flexibiliza o horário de transmissão da “Voz do Brasil”, facultando a cada emissora escolher o horário fazê-lo, desde que não ultrapasse as 22h do mesmo dia.

O projeto, no seu nascedouro, não foi votado no plenário da Câmara dos Deputados. Talvez temerosos com o chamado "baixo clero", aquele que a mídia só cobre quando vira tema grotesco, os defensores do projeto conseguiram que ele fosse enviado diretamente para as comissões do Senado Federal. Em uma delas, foi relatado pelo senador Antonio Carlos Magalhães Filho, empresário ligado à radiodifusão na Bahia.

Nem na tramitação da Câmara dos Deputados nem na do Senado o projeto foi submetido ao crivo do Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão do Congresso Nacional que, regimentalmente, deve analisar todas as propostas legislativas vinculada à temática.


ÁREAS RURAIS


Alguns poderão não gostar daquele refrão de O Guarani, de autoria de Carlos Gomes, mas são obrigados a reconhecer que “A Voz do Brasil” tem desempenhado historicamente importante papel na construção da unidade nacional. A partir de 1962, no processo de mudança da capital federal para Brasília, e com o advento do Código Brasileiro de Telecomunicações, o programa passou a veicular informações sobre o Legislativo, levando a todos os rincões do país as notícias dos feitos parlamentares já instalados no Planalto Central, independentemente de cor partidária, nem sempre alvo das atenções da imprensa tradicional. Nos anos de chumbo do regime militar, “A Voz do Brasil” foi o único veículo em que as oposições tinham espaço para verbalizar suas críticas.

A partir da Nova República, com as mudanças editoriais que recebeu, em especial a adoção de um foco mais jornalístico, o programa contribuiu para a transparência dos eitos públicos e converteu-se em verdadeiro instrumento de fiscalização popular. “A Voz do Brasil” é o único veículo de comunicação do país que informa aos brasileiros dos pequenos municípios a chegada de recursos para a merenda escolar, do Fundeb, dos repasses oficiais, dos programas da Agricultura Familiar, da Previdência Social etc.

Ouvindo o rádio, os cidadãos das áreas mais remotas do país podem melhor exercitar a sua cidadania, cobrando das prefeituras e câmaras municipais as medidas necessárias, já que os aportes federais de recursos públicos foram efetivados.

Podem também tomar conhecimento das decisões judiciais e das fiscalizações do Tribunal de Contas, sem falar na crítica parlamentar, que nem sempre ecoa na imprensa comercial.

É notório que o setor radiofônico brasileiro não cumpre a lei que obriga que pelo menos 5% da programação sejam de produtos jornalísticos. É ridícula a quantidade de profissionais de imprensa contratados por esse setor, que recentemente foi alvo de anistia do Ministério das Comunicações por abuso do limite permitido de veiculação de publicidade. Para as 7.691 estações, segundo dados oficiais do Ministério do Trabalho, não chegam a 2.300 radiojornalistas – ou seja, a cada cinco emissoras em operação, existe um profissional produzindo informação.

A investida dos radioempresários contra “A Voz do Brasil” se dá num momento em que eles acabam de conseguir a renovação de um acordo entre o Ministério da Educação e a Abert. Assinado originalmente pelo então ministro da Educação do governo Collor, Carlos Alberto Chiarelli – e renovado desde então –, o convênio define que as emissoras de rádio que operam em ondas médias não serão mais obrigadas a veicular a programação de ensino à distância do Projeto Minerva. Este projeto federal de ensino à distância, utilizado para reduzir o analfabetismo no Brasil, previa a veiculação de meia hora, todos os dias, entre 20h e 20h30, apenas nas emissoras de ondas médias.

Pelo acordo, esta meia hora de educação gratuita foi transformadaem 5 minutos no rádio e, na TV, em comerciais institucionais do Ministério da Educação. No MEC, o marketing fala mais alto do que a erradicação do analfabetismo.

Outra questão importante é que pesquisas apontam que “A Voz do Brasil” é hoje a única fonte de informação de 80 milhões de brasileiros, localizados principalmente nas periferias dos grandes centros, nas áreas rurais e nos municípios de pequeno e médio porte do Brasil e, em especial, nas áreas rurais das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Para o camponês, veicular “A Voz do Brasil” mais tarde é o mesmo de tirá-la do ar, pois ele dorme e acorda com as galinhas.


PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL


Por sua trajetória histórica, importância para a integração nacional e contribuição para a construção da cidadania brasileira, teve início em Brasília um movimento de preservação da” Voz do Brasil”. Nascido entre jornalistas e radialistas da cidade, o movimento conta com apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Federação Interestadual dos Radialistas (Fitert), sindicatos dos jornalistas do Distrito Federal e do Estado do Rio, sindicato dos radialistas do DF, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Central Geral de Trabalhadores do Brasil (CGT-B), CNBB, MST e outras entidades civis.

O movimento "Em Brasília 19 Horas" defende a preservação desse importante instrumento de comunicação e o seu tombamento como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O país não pode perder seu informativo radiofônico mais antigo do mundo. A proposta foi abraçada pela senadora Marinor Brito (PSOL-PA), que já a apresentou na forma de projeto de lei. Este conta com apoio pluripartidário, dentre outros, do senador Roberto Requião (PMDB-PR) e da senadora Vanessa Graziotin (PCdoB-AM).

Além de classificar como patrimônio imaterial cultural do Brasil, o projeto de lei determina que seu horário seja obrigatoriamente das 19h às 20h, segundo o horário oficial de Brasília. Em última instância, trata-se da defesa de uma bem sucedidaexperiência de regulamentação informativa paradoxalmente ameaçada quando cresce na sociedade e no governo federal a consciência sobre a importância da regulamentação democrática das comunicações.

(*) Chico Sant’Anna e Beto Almeida Respectivamente, jornalista e PhD em Ciência da Informação e Comunicação pela Universidade de Rennes 1 (França); jornalista e diretor no Brasil da Telesur.

Fonte: Carta Maior.

Justiça Suspende Licença Parcial Para Hidrelétrica de Belo Monte

Sem medidas preparatórias nenhuma obra da usina pode ser iniciada

A Justiça Federal no Pará determinou hoje (25/02) a suspensão imediata da licença de instalação parcial que permitia o início das obras do canteiro da usina hidrelétrica hidrelétrico de Belo Monte, no rio Xingu (PA). A decisão impede também o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de transferir recursos financeiros à Norte Energia S.A.

O juiz Ronaldo Destêrro, da 9ª Vara da Justiça Federal em Belém, considerou que as condicionantes necessárias segundo o próprio Ibama para o início das obras não foram cumpridas. “Em lugar de o órgão ambiental conduzir o procedimento, acaba por ser a Nesa que, à vista dos seus interesses, suas necessidades e seu cronograma, tem imposto ao Ibama o modo de condução do licenciamento de Belo Monte”, diz o juiz na decisão.

A licença parcial foi concedida em 26 de janeiro. Até então, 29 pré-condições não tinham sido cumpridas, quatro foram realizadas parcialmente e sobre as demais 33 não havia qualquer informação. Entre as pré-condições, tecnicamente chamadas de condicionantes, estão medidas como a recuperação de áreas degradadas, preparo de infraestrutura urbana, iniciativas para garantir a navegabilidade nos rios da região, regularização fundiária de áreas afetadas e programas de apoio a indígenas.

Em 2010, o MPF questionou a Norte Energia sobre o cumprimento das condicionantes. A concessionária pediu ampliação de prazo para dar a resposta, que acabou não apresentando. No dia seguinte à emissão da licença o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou a ação contra a medida, denunciando o descumprimento das condicionantes.

"Em todas as etapas do licenciamento o governo federal vem desrespeitando a Constituição e as leis ambientais, com o auxílio do Ibama, que deixou de ser um órgão técnico e agora cede a pressões políticas", denuncia Felício Pontes Jr., um dos procuradores da República autores da ação. "À medida que o tempo passa, mais estudos demonstram que essa obra não se sustenta nem mesmo do ponto de vista econômico. Seria a obra mais cara do país para pouca energia", diz Pontes Jr.

Migração - Estimativas extra-oficiais às quais os procuradores da República tiveram acesso apontam que o simples anúncio da obra, no ano passado, já atraiu cerca de 8 mil pessoas em busca de emprego para a cidade de Altamira, a maior da região. A atração populacional pode causar um colapso nos já precários sistemas de abastecimento, saneamento, saúde e educação, informa o procurador da República em Altamira Cláudio Terre do Amaral.

O procurador da República Ubiratan Cazetta é taxativo: "O início da obra sem as condicionantes provocaria o caos em termos de infra-estrutura na região de Altamira".

O projeto hidrelétrico também motivou o ajuizamento, pelo MPF, de mais outros nove processos, todos por violações à legislação. Em um deles houve sentença transitada em julgado, a favor do MPF. Os outros nove processos aguardam a palavra final da Justiça.

As ações questionam não só o desrespeito às regras do licenciamento ambiental mas também os números apresentados nos estudos do projeto. Entre eles, destaca-se os relativos à quantidade de água que será liberada no trecho de cem quilômetros da Volta Grande do Xingu, por onde o rio não mais passará em virtude de um desvio. Trata-se de uma região onde vivem pelo menos 12 mil famílias e 372 espécies de peixes.

A Eletrobras propõe que a Volta Grande seja irrigada com apenas 4 mil metros cúbicos por segundo. O Ibama diz que deve ser o dobro e que, ainda assim,  haverá o desaparecimento de várias espécies de peixes.

Os peritos do MPF mostraram que nenhum nem outro têm razão. Analisando o volume de água do Xingu na série histórica de 1971 a 2006, comprovaram que as turbinas só geram energia se passarem por elas 14 mil metros cúbicos de água por segundo. Somaram esse volume aos 8 mil metros cúbicos de água por segundo propostos pelo Ibama. Chegaram a 22 mil metros cúbicos de água por segundo.

Nos 35 anos analisados pelo MPF, no entanto, em 70% do tempo o Xingu não foi capaz de atingir esse volume, nem nas épocas de maior cheia. "Os estudos demonstram que não há água suficiente para gerar energia naquela que, se um dia sair do papel, será a obra mais cara do Brasil", ressalta Pontes Jr. "A sociedade precisa ter a chance de discutir seriamente esse projeto".

 

Fonte: MPF - Procuradoria da República no Pará

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um Belo Monte de Impactos...

Belo Monte para quem?

Fim de Tarde...


Apesar dos pesares da vida, a tarde não poderia terminar de melhor maneira. Saudades de Mercedes... Saudades...




Dança Macabra de Cinismo

Dança Macabra de Cinismo é o título da mais recente reflexão do líder da Revolução Cubana Fidel Castro Ruz. O texto foi publicado na Prensa Latina



DANÇA MACABRA DE CINISMO
por Fidel Castro

A política de saque imposta pelos Estados Unidos e seus aliados da Otan no Oriente Médio entrou em crise. Esta se desencadeou inevitavelmente com o alto custo dos cereais, cujos efeitos se fazem sentir com mais força que nos países árabes onde apesar de seus enormes recursos petrolíferos, a escassez de água, as áreas desérticas e a pobreza generalizada do povo contrastam com os enormes recursos derivados do petróleo que possuem os setores privilegiados.

Enquanto os preços dos alimentos triplicam, as fortunas imobiliárias e os tesouros da minoria aristocrática se elevam a trilhões de dólares.

O mundo arábico, de cultura e crença muçulmana, viu-se adicionalmente humilhado pela imposição a sangue e fogo de um Estado que não foi capaz de cumprir as obrigações elementares que lhe deram origem, a partir da ordem colonial existente até finais da Segunda Guerra Mundial, em virtude da qual as potências vitoriosas criaram a ONU e impuseram o comércio e a economia mundiais.

Graças à traição de Mubarak em Camp David o Estado árabe palestino no tem podido existir, apesar dos acordos da ONU de novembro de 1947, e Israel se converteu em uma forte potência nuclear aliada aos Estados Unidos e à Otan.

O Complexo Militar Industrial dos Estados Unidos forneceu dezenas de bilhões de dólares por ano a Israel e aos próprios estados árabes submetidos e humilhados por este.

O gênio tinha saído da garrafa e a Otan não sabe como controlá-lo.

Vão tratar de tirar o máximo de proveito dos lamentáveis acontecimentos da Líbia. Ninguém seria capaz de saber neste momento o que está ocorrendo ali. Todas as cifras e versões, até as mais inverossímeis, têm sido divulgadas pelo império através dos meios de comunicação de massa, semeando o caos e a desinformação.

É evidente que dentro da Líbia se desenvolve uma guerra civil. Por que e como a mesma foi desencadeada? Quem pagará as consequências? A agência Reuters, fazendo eco ao critério de um conhecido banco do Japão, o Nomura, expressou que o preço do petróleo poderia ultrapassar qualquer limite: “Se a Líbia e a Argélia suspenderem a produção petrolífera, os preços poderiam chegar a um máximo acima de 220 dólares por barril e a capacidade ociosa da Opep seria reduzida a 2,1 milhões de barris por dia, similar aos níveis vistos durante a guerra do Golfo e quando os valores atingiram os 147 dólares por barril em 2008”, afirmou o banco em uma nota.”

Quem poderia pagar hoje esse preço? Quais seriam as consequências em meio à crise alimentar?

Os líderes principais da Otan estão exaltados. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, informou a agência Ansa, “…admitiu em um discurso no Kuwait que os países ocidentais se equivocaram em apoiar governos não democráticos no mundo árabe.” Deve-se felicitá-lo pela franqueza.

Seu colega francês Nicolás Sarkozy declarou: “A prolongada repressão brutal e sangrenta da população civil líbia é repugnante”.

O chanceler italiano Franco Frattini declarou “crível”a cifra de mil mortos em Trípoli [...] “a cifra trágica será um banho de sangue”.

Hillary Clinton declarou: “…o banho de sangue é completamente inaceitável e tem que parar…”
Ban Ki-moon falou: “É absolutamente inaceitável o uso da violência que há no país’.”
“…O Conselho de Segurança atuará de acordo com o que decida a comunidade internacional’.”
“Estamos considerando uma série de opções”.

O que Ban Ki-moon espera realmente é que Obama dê a última palavra.

O presidente dos Estados Unidos falou na tarde desta quarta-feira (23) e expressou que a secretária de Estado sairia para a Europa a fim de acordar com seus aliados da Otan as medidas a tomar. Em seu rosto se apreciava a oportunidade de lidar com o senador da extrema direita dos republicanos, John McCain; o senador pró- israelense de Connecticut, Joseph Lieberman e os líderes do Tea Party, para garantir sua postulação pelo partido democrata.

Os meios de comunicação de massa do império prepararam o terreno para atuar. Nada haveria de estranho numa intervenção militar na Líbia, com o que, ademais, garantir-se-ia à Europa os quase dois milhões de barris diários de petróleo leve, se não ocorrerem antes acontecimentos que ponham fim à chefia ou à vida de Kadafi.

De qualquer forma, o papel de Obama é bastante complicado. Qual será a reação do mundo árabe e muçulmano se o sangue nesse país for derramado em abundância com essa aventura? Uma intervenção da Otan na Líbia deterá a onda revolucionária desencadeada no Egito?

No Iraque se derramou o sangue inocente de mais de um milhão de cidadãos árabes, quando o país foi invadido com falsos pretextos. Missão cumprida! - proclamou George W. Bush.
Ninguém no mundo nunca estará de acordo com a morte de civis indefesos na Líbia ou qualquer outro lugar. E me pergunto: os Estados Unidos e a Otan aplicarão esse princípio aos civis indefesos que os aviões sem piloto ianques e os soldados dessa organização matam todos os dias no Afeganistão e no Paquistão?

É uma dança macabra de cinismo.

Fidel Castro Ruz
23 de fevereiro de 2011, às 19 h 42

Justiça Britânica Aprova a Extradição de Julian Assange



O Tribuanal de Belmarsh deferiu hoje o pedido da Justiça sueca de extradição do fundador do Wikileaks Julian Assenge acusado de supostos delitos sexuais. O juiz britânico Howard Riddle, que no inicio de fevereiro havia argumentado que precisava de mais tempo para apreciar o requerimento das autoridades suecas de extraditação do jornalista australiano de 39 anos, rejeitou nesta quinta-feira os argumentos de que Assange não teria um justo julgamento em território sueco, haja vista a justiça sueca habitualmente excluir a imprensa e o público de julgamentos relacionados a crimes sexuais.

Riddle, também considerou improcedente os argumentos da defesa de Assenge de que um possível extradição do jornalista para a Suécia corresponderia a violação dos direitos humanos do acusado. A defesa tem sete dias para apelar da decisão proferida. Caso não o faça, a extradição para a Suécia se dará em dez dias.

O editor chefe da Wikileaks enfureceu o governo estadunidense e os políticos conservadores ao publicar secretas comunicações diplomáticas no site da Wikileaks. Dessa forma, um dos principais arguementos dos defensores de Assenge é que a extradição para a Suécia pode ser seguida de uma extradição para os EUA, onde o referido poderia ser acusado de crimes políticos e espionagem.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Os Indiferentes...


“Viver quer dizer tomar partido. Quem verdadeiramente vive, não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida." (Antonio Gramsci)


Antonio Gramsci dispensa qualquer espécie de palavras ou introduções. Em abril completará 74 anos que o pensador sardo fechou seus olhos para este mundo aos 46 anos de idade. Com a saúde debilitada, Antonio morreu seis dias após ter conseguido liberdade condicional após dez anos de cárcere. Gramsci havia sido condenado a vinte anos de reclusão por um tribunal facista e o objetivo era simples: calar a sua mente. No entanto, não conseguiram. Gramsci continua a nos falar hoje.

A postagem a seguir é de um texto da juventude de Gramsci. Um belo e apoixonado canto...


Indiferentes
por Antonio Gramsci

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
 
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
 
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
 
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
 
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
 
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.
 
* * *
 
"Vivo, sono partigiano. Perciò odio chi non parteggia, odio gli indifferenti."

Saudades do Magro...



Em 23 de fevereiro de 1965 falecia aos 74 anos de idade, em Santa Mônica - Califónia, Stan Laurel. Laurel formou juntamente com Oliver Hardy a mais famosa dupla cômica do universo cinematográfico: "O Gordo e o Magro".

Suas trapalhadas e confusões me renderam muitos risos na infância. Saudades Laurel e Hardy... Saudades...