sábado, 4 de junho de 2011

Canção de Amor à América

Ai América,
que longo caminhar!

Eu venho com o trigo do meu canto,
minha ternura aberta
e o meu espanto;
e desde o fundo de mim e assombrado
e pelos meus lábios de vinho e gaivotas,
te trago o meu cantar de caminhante.

Para ti, amada minha,
para teu corpo de cansaço
e por tua fome
eu trago este meu verso frutecido.

Eu venho com o rocio do amanhecer
sou o cantor da aurora
o que desperta
o que anuncia a vida e a esperança.
Eu sou o mensageiro destes anos
o cantor deste tempo e destas terras
eu sou daqui,
desde a Patagônia até o Rio Grande
e desde aqui alço meu canto para o mundo.

Ai América,
que longo caminhar!

Eu sou como uma ave que passa
apenas um cantor errante,
mas se na minha voz há uma guitarra delirante,
é para golpear-te América,
para levantar teu braço adormecido.

Agora venho cantar-te
e meu canto é como o dia e como a água
para que me entenda sobretudo o homem humilde.
Agora venho cantar-te
mas em teu nome América,
eu só posso cantar com a voz que denuncia.

Eu não venho cantar o esplendor de Machu Picchu
a Grande Cordilheira e a neve eterna;
não venho cantar a esta América de vulcões e arquipélagos
a esta América altiplânica da lhama esbelta e de vicunha;
eu venho em nome de uma América parda, branca e negra,
e desde Arauco a Yucatán,
venho em nome desta América indígena agonizante,
eu venho sobretudo em nome de uma América proletária
em nome do cobre e do estanho ensangüentado.

Eu hoje não vim cantar um continente de paisagens,
não vim falar dos lagos escondidos na montanha
nem dos rios que correm ao fundo dos vales florescidos;
não, eu não vim cantar a este trigo que se nega a quem semeia;
eu venho por uma história mais sincera,
venho falar do homem que vi e ouvi pelos caminhos.

Ai América,
que longo caminhar!

Eu venho falar do camponês
de sua pele seca e sua cor de bronze,
de sua túnica desbotada e o seu colchão de terra,
de sua resignação e seu misterioso silêncio,
de seu grito incontido que me alguma parte se levanta,
de sua fome saciada com o sangue dos massacres.

Eu venho falar do mineiro e sua morte prematura,
de uma vida quase inteira vivida na penumbra tumular dos socavões,
da silicose escavando dia a dia os pulmões dos operários jovens;
eu venho falar das palhiris bolivianas,
dessas desamparadas viúvas do mineiro massacrado ou soterrado,
que buscam no lixo do estanho,
o pão diário dos seus filhos.

Eu não vim para falar do encanto colonial destas cidades,
dos altares espanhóis recobertos com o ouro incaico,
das grandes praças onde se erguem as estátuas magníficas dos libertadores;
venho falar de favelas, barriadas e tugurios,
de povoações calhampas e vilas-misérias,
eu venho falar da tuberculose e do frio,
venho em nome dos meninos sem pão e chocolates.

Eu venho falar por toda voz eu se levanta,
por uma geração reprimida com fuzis,
venho falar das universidades fechadas
e com a marca das tiranias encravadas nas paredes.

Eu venho denunciar falsas revoluções
e o oportuno pacifismo,
venho falar de um tempo de desterros e torturas,
eu venho alertar sobre um terror que cresce uniformado
e sobre estes anos em que cada promessa de paz é uma mentira.

Ai América,
que longo caminhar!

Rumo ao norte
ao sul
a leste ou a oeste,
eu avanço atravessando estas nações.

Oh, caminhar, caminhar
e saber sentir-se um caminhante!
pois é tão triste morrer a cada dia
morrer com os punhos abertos e o coração vazio.
Morrer distante do homem e sua esperança
morrer indiferente ao mundo que morre
morrer sempre
quando a vida é um gesto de amor desesperado.

Oh, caminhar, caminhar!
mas caminhar como caminha o rio e a semente,
conhecendo a mais completa plenitude em seu destino.
Oh, caminhar!
e saber-se um dia fruto.
Caminhar
e sentir-se um dia mar.

Ai, América,
que não exista a dúvida em meu caminho,
que somente me guie este imenso amor que trago,
que apenas esta paixão de justo me enamore.

Fui prisioneiro,
mas outra vez sou pássaro,
outra vez um caminhante,
e volto a abrir a alma com meu canto.

Hoje me detenho aqui...
Levanto minha voz,
minha bandeira de sonhos,
minha fé.
Recolho meu testemunho e me vou.

Eu sou o jogral maldito
e bem-amado.
Meu canto é um grito de combate
e eu não canto por cantar.
Eu parto deixando sempre uma inquietude,
deixando numa senha a certeza de uma aurora.

Eu sou o cantor clandestino e fugitivo,
aquele que ama a solidão imensa dos caminhos.
Passo despercebido de cidade em cidade.
Em algum lugar público eu vou dizer meus versos
e ali conheço amigos e inimigos.
Mas sempre pude encontrar ao grande companheiro,
ao homem novo,
aquele que traz a marca verdadeira,
aquele que se aproxima em silêncio
e como um gesto inconfundível me saúda.

Ai América,
que longo caminhar!

Eu venho amada América,
para iluminar com meu canto este caminho,
te trago meu sonho imenso, latino e americano,
e meu coração descalço e peregrino.
Mas quando sinto meu sangue escorrendo-se nos anos
e que a vida se me acabe antes de ver-te amanhecida;
quando penso que é muito pouco amada minha
o que eu posso dar-te um poema;
ai, quando penso nestas flores de sangue que murcharam,
nestes iluminados corpos que tombaram,
e que talvez não pude fazer por ti quando quisera,
ai, se com o tempo eu descobrir
que este lírico fuzil que trago não dispara,
ai, América,
quem dirá que a intenção que tive foi sincera.

Manoel de Andrade - Quito, Agosto 70