domingo, 31 de julho de 2011

Tanto Amar




Tanto Amar 
(Chico Buarque)



Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar
E outro que agita
Tem um olho que não está
Meus olhares evita
E outro olho a me arregalar
Sua pepita
A metade do seu olhar
Está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar
Na bodeguita
Se os seus olhos eu for cantar
Um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar
Toda a pintura
Ela pode rodopiar
E mudar de figura
A paloma do seu mirar
Virar miúra
É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro
Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar
E outro me fita
Suas pernas vão me enroscar
Num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar
No infinito
Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um chico
Já pensamos em nos casar
Em Porto Rico



Morre protagonista do documentário “Estamira”


Filme de Marcos Prado, premiado mundialmente, seguia rotina de mulher em aterro sanitário

Morreu nesta quinta-feira (28), no Rio de Janeiro, a protagonista do premiado documentário “Estamira” (2005), Estamira Gomes de Souza, que tinha 72 anos. O enterro acontece nesta sexta no Cemitério do Caju.
Estamira estava internada no Hospital Miguel Couto, na Gávea, desde a terça-feira (26). Ela sofria de diabetes e morreu em decorrência de uma infecção generalizada.
Lançado em 2005, “Estamira” foi dirigido por Marcos Prado, sócio de José Padilha na Zazen Produções e produtor de “Tropa de Elite 1 e 2″. O documentário segue a personagem-título, uma mulher que possui problemas mentais e sobrevivia com o que encontrava no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio.
Através de sua conta no Facebook, Prado afirma que Estamira morreu por falta de atendimento. “Estamira ficou invisível pela falência e deficiência de nossas instituições públicas”, escreveu. “Morreu depois de ficar dois dias esperando por atendimento nos corredores da morte do nosso maravilhoso serviço público de saúde do Miguel Couto.”
O documentário foi premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo – no total, 23 estatuetas –, incluindo melhor documentário pelo júri oficial no Festival do Rio, na Mostra de Cinema de São Paulo e o Grande Prêmio do Festival Internacional de Documentário de Marseille.


Na semana que inicia...



Quero uma tarde amarelada, 
uma xícara de chá quentinha, 
biscoitinhos... livro... companhia! 

Morte e Vida Severina - Fragmento

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO



—  Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.

—  é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe

neste latifúndio.
—  Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
—  é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
—  é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
—  é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.
                                —  Viverás, e para sempre 
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
—  Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
—  Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
—  Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
—  Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
—  Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
—  Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
—  Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
—  Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
—  Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
—  Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
—  Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

—  Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
—  Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)
—  Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
—  Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
—  Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)
—  Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

  —  Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
—  Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
—  Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
—  Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
—  Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
                                   - Já não tens força na mão 
deixa-te semear no leirão.

(João Cabral de Melo Neto)



Morte e Vida Severina ganha animação em 3D

Das paisagens áridas e secas do interior de Pernambuco sai o retirante Severino. Para escapar da morte lá “morrida antes dos trinta” e em busca de melhores condições de vida, o retirante segue rumo ao litoral. 

Por Fabíola Perez

Em sua romaria, Severino usa o rio Capibaribe como guia e, por todos os lugares em que passa, dá de cara com a morte e com a vida “severina” – aquela que para ele é “a vida mais vivida do que defendida”.  





Produzida pela TV Escola, a versão animada do livro de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina – Um Auto de Natal Pernambucano, se baseia também nos quadrinhos do cartunista Miguel Falcão. Preservando o texto original, a animação 3D dá vida e movimento aos personagens da história, publicada originalmente em 1956. 


Ao chegar à primeira cidade do Agreste, Toritama, o retirante-lavrador pergunta ansioso por trabalho. A mulher da janela prontamente responde que trabalho é o que não falta para quem sabe trabalhar. O grande ofício a que a senhora faladeira se refere é a própria morte. Só tem lugar em Toritama que sabe fazer da morte profissão – coveiro, farmacêutico e rezador.

O retirante segue seu caminho e encontra as doces e férteis terras da Zona da Mata. “De certo, a gente daqui jamais envelhece antes dos trinta. Nem sabe da morte em vida.” A primeira impressão é de que lá as pessoas nem devem trabalhar. Mas, não demora muito, Severino encontra um cemitério e mais uma vez, frente a frente com a morte, entende a ínfima “parte que lhe cabe deste latifúndio”. 

Mesmo encantado com a terra das farturas – onde o rio Capibaribe passa a ser perene –, Severino resolve “apressar a ladainha” e ir embora para o Recife. Na Zona Metropolitana, ouve uma conversa entre dois coveiros. O tema do falatório mais uma vez é a velha conhecida. 

Os homens falam sobre como a morte recebida, por gente pobre e por gente rica. No bairro de Casa Amarela morrem os artistas, os intelectuais, os jornalistas. Agora, em Santo Amaro é lugar de gente que vem de longe, “gente sofrida”, que encontra com o mar e não tem como continuar. 

Com o fim do curso do Capibaribe é que se finda a saga deste e de outros Severinos. Do agreste ao litoral, de substantivos a adjetivos, iguais em tudo na vida.


Fonte: Vermelho

Aumentam os ataques a mulheres no metrô


Por Wilson H. da Silva


Na quarta feira, 27 de julho, uma estudante Direito de 18 anos (identificada apenas pelas siglas L.S.), sofreu um ultrajante ataque sexual no interior de um vagão do metrô na estação Barra Funda, na região oeste de São Paulo. O ataque à jovem, que ocorreu às 8h, foi o 43° episódio de agressão sexual ocorrido no interior do sistema metropolitano apenas este ano.

Um número que, com certeza, está muito abaixo da realidade, como lembra Marisa dos Santos Mendes, da Secretaria de Assuntos da Mulher do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e militante do PSTU: “Na verdade, os casos de assédio dentro do transporte público e no metrô, em particular, são incontáveis, têm aumentado e se tornado mais audaciosos e violentos em função de dois problemas seríssimos: a impunidade que cerca os casos e, também, o constrangimento sofrido pelas mulheres ao denunciar esse tipo de agressão”.

Exemplo disto é o fato de que, além do ataque do dia 27, outros três já haviam sido registrados entre os dias 19 e 21 de julho. E, como lembra Marisa, “se isto não bastasse, ainda temos que conviver com posturas inaceitáveis, como a da Rede Globo, que, como foi denunciado no site do PSTU, exibe, todos os sábados, um asqueroso quadro chamado Metrô Zorra Total, em que personagens tratam a violência sexual como piada, o que, evidentemente, só contribui para a banalização deste tipo de violência”.

Sufoco e impunidade, as raízes da violência

Qualquer um que circula pelo metrô de São Paulo, que recentemente ganhou o prêmio de “o metrô mais lotado do mundo”, sabe exatamente o que significa sufoco. Contudo, somente as mulheres podem dizer o quanto esta situação se torna ainda mais insuportável em função do machismo e da degeneração das relações humanas.

Um sufoco que, como também destacou a diretora do sindicato, está na raiz dos ataques em dois sentidos. “Primeiro, porque estamos pra lá do limite da capacidade do sistema, operando, principalmente nos horários de pico, quando ocorrem a maioria dos ataques, com uma superlotação absurda. Segundo, porque o mesmo sufoco é sentindo pelos funcionários, já que, por mais que os trabalhadores da segurança tentem garantir a integridade das usuárias, isto é muito difícil, pura e simplesmente porque não há trabalhadores suficientes”. 

Por isso mesmo, para além do desconforto e do empurra-empurra, mulheres, de todas idades, são obrigadas a conviver com homens se esfregando em seus corpos e as apalpando das formas mais nojentas, não sendo raro, inclusive, o relato de mulheres que saem dos vagões com esperma escorrendo em suas roupas.

Uma situação bastante próxima do que ocorreu com a estudante de Direito, que foi atacada no interior de um vagão lotado, às 7h45 da manhã: “Percebi que ele estava com a mão na minha virilha. Comecei a gritar (...) Foi horrível, vai ser difícil esquecer”. A situação só não foi pior porque a jovem, demonstrando coragem invejável, partiu para cima do sujeito (um bancário de 23 anos), aos tapas e gritos, o que chamou a atenção dos seguranças.

Apesar disto, e fiel à lamentável regra que vigora nestas situações, o criminoso machista saiu praticamente impune da história. Detido pela Delegacia de Polícia do Metropolitano (Delpom), ele foi autuado apenas por “importunação ofensiva ao pudor”, que não configura crime.

Uma impunidade, como disse Marisa, que está na raiz da reincidência dos casos que, este ano, já atingiram a média de seis ataques por mês.

Cenas de terror

No dia anterior ao ataque à estudante de Direito, houve outra ocorrência exemplar da combinação entre sufoco, impunidade e ataques machistas: um analista de sistemas tentou forçar sua entrada num vagão com socos e cotoveladas desferidos contra duas passageiras que, ao reagirem, foram ameaçadas com um canivete.

Novamente, o agressor foi detido e liberado na sequência, indiciado por agressão, porte de arma branca e lesão corporal. O episódio ocorreu às 7h45 da manhã na estação Tatuapé, conhecida por sua hiperlotação.

Já o episódio anterior, em 19 de julho, evidencia o problema relacionado à falta de funcionários e segurança. Na terça, 19 de julho, às 9h20 da manhã, um homem agarrou a autônoma Ana Claúdia, de 34 anos, abaixou as calças e, ameaçando-a com uma faca, tentou estuprá-la numa escadaria localizada em um ponto ermo (sem câmeras ou seguranças) da estação Sacomã. Apesar de ferida, Ana conseguiu se livrar do agressor, que também fugiu local. 

Dois dias depois, desta vez no final da tarde, na estação Anhangabaú, outro sujeito foi preso enquanto, “importunava de forma libidinosa” uma passageira. 

Um dos casos mais graves dos que se tem notícia aconteceu em 19 de abril, quando uma vendedora foi violentada no interior de um vagão entre as estações Paraíso e Brigadeiro. Aproveitando-se da enorme quantidade de pessoas no trem, o estuprador aproximou um objeto cortante do rosto da mulher, e colocando a mão por baixo de sua saia, rasgou sua calcinha e a violentou. 

Contudo, o número certamente é muitíssimo maior. Por exemplo, outros sete casos foram registrados como “ato obsceno”. Além disso, também são vários os casos em que os estupradores se aproveitam do tumulto que predomina no interior e redondezas das estações para fazer vítimas. Nos últimos doze meses, pelo menos duas mulheres foram retiradas das estações (sob ameaça de armas) e conduzidas para locais próximos, onde foram violentadas. No último caso, no dia 5 de abril, o criminoso chegou a gravar seus atos.

Muita propaganda, pouca segurança

Enquanto isto, além das intragáveis piadas do Zorra Total, a Companhia Metropolitana e o governo do Estado de São Paulo também tratam o problema com uma escandalosa falta de seriedade.

Ao mesmo tempo em que gastam milhões para fazer propaganda sobre as supostas modernidade e eficiência do sistema, estes senhores têm dado declarações à imprensa que soam como verdadeiros insultos para as mulheres que têm passado por estas experiências traumatizantes.

No dia 20, depois do penúltimo ataque, o chefe do Departamento de Segurança do Metrô, Rubens Menezes, tentou minimizar, de forma vergonhosa, o ultraje ao qual as mulheres têm sido submetidas no interior das estações: “Transportamos mais de nove milhões de pessoas no primeiro semestre nas Estações Sacomã, Tamanduateí e Vila Prudente e tivemos um ato obsceno. (...) Em relação ao volume de passageiros transportados, o ato obsceno não é comum nas estações”. 

Diante de afirmação tão absurda, caberia lembrar ao representante do Metrô que nem mesmo um único caso poderia ser tolerado. Não há nada de normal ou aceitável nesta história. Algo devidamente lembrado, em entrevista ao G1, por Ana Claudia, que conseguiu escapar do ataque na estação Sacomã: “Eu não aceito esta situação de passar uma propaganda na televisão de que a estação Sacomã é uma das mais novas, mais modernas, totalmente segura, e acontecer um negócio desses”.

Chega de sufoco, basta de violência!

Exemplo lamentável da violência machista que, neste país, faz com que uma mulher seja violentada a cada 12 segundos e uma assassinada a cada duas horas, o que está se passando no metrô (ou nos ônibus, trens e todo tipo de transporte público) é algo que tem de ser combatido veementemente.

Um combate que tem muitas frentes, como lembra a dirigente da Secretaria de Assuntos da Mulher do Sindicato dos Metroviários: “Diante desta situação, uma das principais reivindicações do sindicato é a contratação imediata de mais funcionários, o primeiro passo para deter as agressões. Além disso, estamos com o movimento feminista combatente, na luta pela punição imediata e exemplar de todo e qualquer agressor machista”.

Além disso, continua Marisa, “diante dos obstáculos e dificuldades que todas nós, mulheres, conhecemos quando se trata da denúncia deste tipo de agressão, queremos promover uma campanha de conscientização das usuárias, para que elas não deixem estas lamentáveis histórias passar em branco, utilizando todos os canais possíveis, inclusive o Sindicato”.

Medidas que, segundo ela, “são fundamentais, neste momento, mas sabemos que isso só vai parar quando mudarmos complemente a lógica deste sistema e tivermos um transporte público realmente a serviço dos trabalhadores, que garanta condições dignas e segurança para todos, particularmente às mulheres”. 

Fonte: PSTU


Abuso sexual não tem graça


Talvez você não perceba. Talvez até ache graça. Mas a violência contra as mulheres está sendo incentivada dentro da sua casa, de forma nada sutil, no humorístico Zorra Total. No principal quadro do programa, chamado “Metrô Zorra Brasil”, todos os sábados à noite, duas amigas travam um diálogo dentro do vagão lotado. Na fórmula do roteiro, lá pelas tantas, em todos os episódios, um sujeito se aproxima, encosta e bolina a mulher de várias formas. No episódio do dia 9 de julho, o quadro mostrou a mulher sendo “tocada” em suas partes íntimas com a “batuta” de um maestro.

A mulher atacada, Janete (Thalita Carauta), cochicha com sua amiga Valéria (Rodrigo Sant’anna), que, ao invés de defendê-la, diz: “aproveita. Tu é muito ruim, babuína. Se joga”. A claque ri.

O ataque relatado pelo programa acontece todos os dias com milhares de mulheres no nosso país. Só nós mulheres podemos medir a humilhação pela qual passamos nos trens e ônibus lotados e suas consequências. Não tem graça.


No metrô de São Paulo, o mais lotado do mundo, numa manhã de abril, uma jovem trabalhadora foi violentada sexualmente num vagão da linha verde, considerada uma das melhores. Um crápula a segurou pelo braço, ameaçou, enfiou a mão sob sua saia, rasgou sua calcinha e a tocou. Os passageiros perceberam, tentaram agir, mas o homem fugiu. O caso foi registrado como estupro na 78º DP da capital paulista. Impossível rir disso.


É sabido que a Rede Globo nunca foi uma defensora das mulheres e da diversidade. Neste momento mesmo, o diretor-geral da emissora exigiu que os autores da novela Insensato Coração acabassem com comentários favoráveis às bandeiras gays, e recomendou menos ousadia nas cenas entre os dois personagens homossexuais.

Mas o Zorra Total foi longe demais. O quadro do programa incentiva a violência contra às mulheres e o estupro, de uma forma sistemática, já que o ataque é parte da estrutura permanente do texto. Ou seja, todas as semanas, a Rede Globo diz que as mulheres que sofrem abuso sexual devem “aproveitar” e “agradecer”, como se fosse uma dádiva. Repete a lógica do humorista Rafinha Bastos que, pelo Twitter, escreveu que as feias deveriam agradecer ao serem estupradas. E está sendo processado por isso.

O quadro tem alcançado liderança de audiência nas noites de sábado, atingindo cerca de 25 pontos de audiência. Ou seja, milhões de lares recebem toda semana a mensagem de que é natural abusar sexualmente de mulheres no metrô, nos trens, nos ônibus. Não é preciso muito para saber que o quadro certamente terá efeitos sobre esse público, naturalizando a violência contra a mulher, diminuindo a gravidade de um crime, tornando-o algo menor, sem importância.

Essa brincadeira não tem graça. É no mínimo lamentável que o talento da dupla de humoristas esteja sendo desperdiçado em um quadro que incentiva o ataque às mulheres trabalhadoras. É revoltante que a emissora líder mantenha um programa que defende práticas tão nefastas, num país onde uma mulher é violentada a cada 12 segundos; onde uma mulher é assassinada a cada duas horas; onde 43% das mulheres sofrem violência doméstica.

Secretaria Nacional de Mulheres do PSTU

Fonte: PSTU

Estado com maior índice de pobreza vive “explosão de violência”


A Anistia Internacional, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e a Secretaria de Segurança do estado foram acionados depois de dois agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) serem ameaçados de morte no Maranhão, na última segunda-feira (25).
Minutos antes de uma audiência, o fazendeiro Edmilson Pontes de Araujo disse que precisa “passar o fogo de vez em quando”. Ele fazia referência ao advogado Diogo Cabral e ao padre Inaldo Serejo, que atuam na defesa da comunidade quilombola de Pirapemas. A disputa envolve mais de mil hectares de terras tradicionais, segundo relato do advogado.
“Vários outros têm sido ameaçado constantemente, seja por particulares, seja por policiais. É uma situação que temos denunciado há bastante tempo. Vêm as ameaças, depois as tentativas de homicídio e depois os homicídios. E fica por isso mesmo.”
Quase 1/4 da população maranhense vive abaixo da linha da pobreza, segundo dados do Senso 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dos 50 municípios mais pobres do país, 32 são do Maranhão. Cabral lembra que o estado apresenta uma das maiores concentrações de terras do país.
“76% da população do estado do Maranhão é negra e hoje vivem no campo quase 40% da população do estado. O que ocorre é uma explosão de violência Ficam de um lado os trabalhadores rurais quilombolas com seus direitos territoriais ameaçados e, de outro lado, os fazendeiros, empresários, sojicultores e criadores de búfalo ameaçando, incendiando casas.”
Ainda segundo Cabral, a duplicação da estrada de ferro Carajás causará impactos em inúmeras comunidades. Os quilombolas não tiveram direitos reconhecidos no processo de licenciamento. A mineradora Vale é responsável pela obra.
De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.
Fonte: Rodioagência NP

Repara que há veludo nos ursos...

Um dos meus poemas favoritos...


A Luís Maurício, Infante


Acorda, Luis Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luis Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luis Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luis Mauricio, que sejam novos e comovidos.

E como há tempo para viver, Luis Mauricio, podes gastá-lo à janela
que dá para a “Justicia del Trabajo”, onde a imaginosa linha da hera

tenazmente compõe seu desenho, recobrindo o que é feio, formal e triste.
Sucede que chegou a primavera, menino, e o muro já não existe.

Admito que amo nos vegetais a carga de silêncio, Luis Mauricio.
Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício.

E agora, começa a crescer. Em poucas semanas um homem
Se manifesta na boca, nos rins, na medalhinha do nome.

Já te vejo na proporção da cidade, dessa caminha em que dormes.
Dir-se-ia que só o anão de Harrods, hoje velho, entre garotos enormes,

conserva o disfarce da infância, como, na sua imobilidade,
à esquina de Córdoba e Florida, só aquele velho pendido e sentado,

de luvas e sobretudo, vê passar (é cego) o tempo que não enxergamos,
o tempo irreversível, o tempo estático, espaço vazio entre ramos.

O tempo – que fazer dele? Como adivinhar, Luis Mauricio,
o que cada hora traz em si de plenitude e sacrifício?

Hás de aprender o tempo, Luis Mauricio. E há de ser tua ciência
uma tão íntima conexão de ti mesmo e tua existência,

que ninguém suspeitará nada. E teu primeiro segredo
seja antes de alegria subterrânea que de soturno medo.

Aprenderás muitas leis, Luis Mauricio. Mas se as esqueceres depressa,
Outras mais altas descobrirás, e é então que a vida começa,

e recomeça, e a todo instante é outra: tudo é distinto de tudo,
e anda o silêncio, e fala o nevoento horizonte; e sabe guiar-nos o mundo.

Pois a linguagem planta suas árvores no homem e quer vê-las cobertas
de folhas, de signos, de obscuros sentimentos, e avenidas desertas

são apenas as que vemos sem ver, há pelo menos formigas
atarefadas, e pedras felizes ao sol, e projetos e cantigas

que alguém um dia cantará, Luis Mauricio. Procura deslindar o canto.
Ou antes, não procures. Ele se oferecerá sob forma de pranto

ou de riso.E te acompanhará, Luis Mauricio. E as palavras serão servas
de estranha majestade. É tudo estranho. Medita por, exemplo, as ervas,

enquanto és pequeno e teu instinto, solerte, festivamente se aventura
até o âmago das coisas. A que veio, que pode, quanto dura

essa discreta forma verde, entre formas? E imagina ser pensado,
pela erva que pensas. Imagina um elo, uma afeição surda, um passado

articulando os bichos e suas visões, o mundo e seus problemas;
imagina o rei com suas angústias, o pobre com seus diademas,

imagina uma ordem nova; ainda que uma nova desordem, não será bela?
Imagina tudo: o povo,com sua música; o passarinho, com sua donzela;

o namorado com seu espelho mágico; a namorada, com seu mistério;
a casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério;

o físico, o viajante, o afiador de facas, o italiano das sortes e seu realejo;
o poeta sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo;

o menino que é teu irmão, e sua estouvada ciência
de olhos líquidos e azuis, feita de maliciosa inocência,

que ora viaja enigmas extraordinários; por tua vez, a pesquisa
há de solicitar-te um dia, mensagem perturbadora na brisa.

É preciso criar de novo, Luis Mauricio. Reinventar nagôs e latinos,
E as mais severas inscrições, e quantos ensinamentos e os modelos mais finos,

de tal maneira a vida nos excede e temos de enfrentá-la com poderosos recursos.
Mas seja humilde tua valentia. Repara que há veludo nos ursos.

Inconformados e prisioneiros, em Palermo, eles procuram o outro lado,
E na sua faminta inquietação, algo se liberta da jaula e seu quadrado.

Detém-te. A grande flor do hipopótamo brota da água – nenúfar!
E dos dejetos do rinoceronte se alimentam os pássaros. E o açúcar

que dás na palma da mão à língua terna do cão adoça todos os animais.
Repara que autênticos, que fiéis a um estatuto sereno, e como são naturais.

É meio-dia, Luís Maurício, hora belíssima entre todas,
pois, unindo e separando os crepúsculos, à sua luz se consumam as bodas

do vivo com o que já viveu ou vai viver, e a seu puríssimo raio
entre repuxos, os “chicos” e as “palomas” confraternizam na “Plaza de Mayo”.

Aqui me despeço e tenho por plenamente ensinado o teu ofício,
que de ti mesmo e em púrpura o aprendeste ao nascer, meu netinho Luis Mauricio.

Carlos Drummond de Andrade

Carata a Stalingrado

Carlos Drummond de Andrade

Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, 
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.



* Extraído do livro A Rosa do Povo (poemas escritos entre 1943 e 1945). Rio de Janeiro: Record, 1987

Fonte: Vermelho

sábado, 30 de julho de 2011

Álvaro...



Lembro hoje com saudade do março passado no qual conheci você... do primeiro recado... do primeiro poema... Sempre tive a impressão que eu te conhecia da vida inteira. Algo encantado. Talvez fossem os muitos gostos e preferências que tínhamos em comum...

Hoje li todos os poemas que você me enviou, tenho todos eles guardados. Lembrei-me de todas as risadas, das frases, dos versos. Recordei de Luis Mauricio, Infante e da noite em que debulhamos os versos desse nosso poema favorito... Lembrei que como eu, você gostava de Proust, Van Gogh, James Joyce e do biscoito Bono...

As boas lembranças, realmente, são esconderijos confortáveis e sei exatamente onde poderei te encontrar quando a saudade apertar... E olha saudade machuca... Tua alma, entretanto, habita tantas coisas que não irei precisar procurar muito... Até os sinos suscitam tua lembrança...

Jamais pensei que você um dia seria uma das minhas “notas tristes”... Afinal, você sempre foi tão alegria alegria, tantas vezes me fez sorrir e acreditar em mim mesma e na “inacreditável força que vem de dentro”. A vida nos apronta cada coisa... Tão efêmera e, no entanto, tão bonita...

A caixa de entrada agora amanhece vazia e eu me pergunto: quem vai me enviar poemas, amigo? Você era o único que fazia isso... O único que entendeu essa minha necessidade imensa de livros e poesia e sabia que um punhado de versos fazia o meu dia mais feliz... Quem vai...

Sabe... hoje eu chorei o dia inteiro, estou me sentindo um lixo, o coração pequeninho... Tudo errado, eu sei, mas dói tanto... Não tenho coragem de abrir os livros e me poupei de ouvir músicas... Todos eles estão tão sem graça... Já não são mais tão doces...

Eu acho que não preciso dizer que vou me lembrar de você para sempre... até o fim... 
Algumas pessoas se prolongam em nossas vidas infinitamente... Você é uma delas!
E como diria Caio Fernando Abreu "Toda a minha saudade e o meu amor de sempre."
Meu eterno e doce amigo... Saudades... Jamais estaremos distantes... Jamais...


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Direito à memória, à verdade e à justiça; dez pontos sob reflexão



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Charge do Latuff 

Sérgio Muylaert



Não se justifica a inquietude que embaraça e impede a solução definitiva para o tema da memória e da verdade. Trata-se de um direito clássico para as conquistas que devem pavimentar o futuro das nações e dos povos e que aperfeiçoa o rol dos direitos humanos por meio da proclamada justiça de transição.

O clamor contra todas as formas de violência surge de todos os lados da sociedade brasileira e não há como retardar a iniciativa cujo escopo é a efetivação de um direito indisponível do povo brasileiro, conforme reiteram os especialistas. O esforço da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, ao promover Audiências Públicas nos dias 29 e 30 de junho, constitui avanços substanciais e a relutância é desarrazoada.

Será de extrema valia a releitura do ensaio “Raízes da violência” para mostrar os fatos com absoluta atualidade. Com efeito, o pensador e filósofo Roland Corbisier, em 1986, tingiu o horror institucionalizado em sua total dramaticidade ao dizer que a violência tornou-se o nosso pão quotidiano.

1) Sob o foco dos clamores acesos o debate é serenado com a lucidez irretocável do texto “E agora, Brasil?”, onde o jurista Fabio Konder Comparato passa a limpo os fatos da história do país para referir recente condenação explícita do Estado brasileiro, na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Impõe-se a passagem do voto pronunciado por Roberto de Figueiredo Caldas, juiz “ad hoc” da referida Corte Interamericana, em final do ano de 2010.

2) Nos fundamentos apresentados para sua decisão, o juiz Caldas robustece a pretensão de justiça com a qual a interpretação da CIDH se harmoniza com os propósitos do projeto de lei n° 7.376/2010, remetido pelo poder executivo ao Congresso Nacional, que propõe a criação da Comissão Nacional da Memória e Verdade. Por mais esta razão pesa o voto do juiz Caldas em cujo item conclusivo se reafirma solenemente que “a Justiça age de forma igualitária na punição de quem quer que pratique graves crimes contra a humanidade, de modo que a imperatividade do Direito e da Justiça sirvam sempre para mostrar que práticas tão cruéis e desumanas jamais podem se repetir, jamais serão esquecidas e a qualquer tempo serão punidas”.

3) Será preciso lembrar? Após 47 anos, a mega-operação militar contra o governo constitucionalmente eleito contou com a colaboração de setores civis e com o destacado apoio da mídia, para a ostensiva colaboração com o golpe e, nos fatos que antecederam o movimento das tropas em 1964, já o governo Goulart, quando democraticamente constituído, viu-se forçado a travar queda de braços com o conservadorismo dominante em razão da constante hostilidade de grupos econômicos e de interesses privados.

4) Será preciso lembrar? Para que o movimento armado chegasse a usurpar o controle do Estado brasileiro o feitio das práticas adotadas se deu mediante atos de força e estes não se convalidam a luz da doutrina constitucionalista. Ao contrair formas de violência institucionalizada por meio dessas ações, de forma sistemática e por escolha deliberada e sob o comando autorizado, o Estado brasileiro perpetrou a negação dos princípios da ordem jurídica do próprio Estado liberal e, portanto, os efeitos desses atos delituosos se ressentem de tipificação, desde seqüestro, aprisionamento, tortura, estupro e sevícias, bem como desaparecimento forçado de pessoas, práticas redundantes e condenáveis, seja pelo direito penal quer pelo direito internacional.

5) Será preciso lembrar? No escopo de positivar estas ações diversos instrumentos desde os Atos institucionais e regulamentos complementares foram utilizados na extensão do nosso direito interno para ampliação dos poderes, ao arrepio da Carta Política de 1946. Cumpre em qualquer tempo, sob a égide do Estado de direito, assegurar aos autores dessas práticas o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, sob pena de se tornar esta mesma ordem jurídica destituída de eficácia. Em síntese, a tentativa de obstrução ao projeto de lei contrasta, por certo, com a honradez das instituições públicas nacionais. Contudo, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, enquanto órgão máximo judiciário do sistema de proteção para interpretar e aplicar as normas ditadas pela OEA, deixa patente, a partir da sentença proferida no caso Lund vs República Federativa do Brasil, a ausência de prerrogativas dos autores por estas práticas e atentados aos direitos humanos.

6) Será preciso lembrar? Os tratados e convenções de direito internacional, assim como a doutrina moderna e a jurisprudência das cortes internacionais, repelem os crimes de lesa-humanidade e não conferem aos delitos de natureza conexa os benefícios que aos praticados contra o Estado, na forma como interpretou o STF na ADPF n° 153. O instituto jurídico da anistia política, portanto, não se compadece da figura do “perdão” exceto para as vítimas das perseguições políticas desenvolvidas pelo Estado.

7) Não se permite a luz do direito vigente fonte interpretativa que materialize a auto-exculpação ou a auto-anistia, razão pela qual o Estado brasileiro, ao conceder anistia política na forma da Lei n° 10.559, de 2002, proclama a reparação com o correspondente pedido de desculpas aos indivíduos que sofreram perseguição política.

8) Diante de atitudes que desrespeitam fatos públicos e notórios é preciso, ainda, revisar posição em que certos órgãos dos meios de comunicação do setor privado contrapõem notícias desavindas. Agora mesmo se reafirma que a Comissão da Memória e da Verdade esteja a servir de instrumento polêmico de discordâncias, no que admitem por intocável a realidade ocultada. A idéia sob a qual se diz que a iniciativa do projeto de lei n° 7.376/2010 promove o acirramento de ímpetos é, por inteira, falaciosa, tendente a extirpar do significado do projeto a essência dos termos memória e verdade e assim anular o seu claro objetivo cujos fins são proclamados pelo Estado de direito democrático.

9) A tratativa que visa sobrepor ao interesse público os interesses privados, como seja a de ocultação dos fatos, presta-se a confundir o objeto do esquecimento como sinônimo de “anistia”. Vale lembrar a fala do ex-presidente e membro honorário do Conselho Federal da OAB, Dr. Cesar Britto, para quem o termo “anistia” não é amnésia.

10) Em que pesem relutâncias ao projeto de lei o alcance dos direitos humanos não permite que no Estado democrático de direito prepondere qualquer descompasso ou descaso. Esses direitos se orientam e se reafirmam mediante o III Programa Nacional de Direitos Humanos para a consolidação da ordem republicana. Com isto, iniciativas para a interdição dos direitos humanos não devem postergar o projeto de reconstituição da memória nacional, verdadeiramente, com justiça.

Sérgio Muylaert é advogado em Brasília, membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros, vice presidente da Comissão de Anistia (2004-2008), ex-membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB e presidente da Associação Americana de Juristas

Música Para os Olhos



Ascensões e quedas do gênero musical no cinema
Muita gente não gosta de filmes musicais e acaba tachando-os de chatos, fantasiosos ou clichês, mas dificilmente haverá um cinéfilo que não coloque ao menos um no seu “Top 20”. Isso porque, indiscutivelmente, esse gênero é um dos mais carismáticos e importantes da curta história da sétima arte.
Sem dúvida, música e cinema são vistas como indissociáveis. Você conhece algum filme falado que não tenha uma trilha sonora? Difícil, não? De fato, até mesmo na época do cinema mudo, as trilhas já embalavam os filmes. Era comum, em grandes cinemas, um violinista, um pianista ou até mesmo uma pequena orquestra ficar tocando durante as exibições, para dar o tom desejado aos filmes. Isso em salas de exibição pouco audaciosas, pois há relatos até de algumas que colocavam pessoas atrás das grandes telas para dublar, ao vivo, as imaginadas falas dos atores.
No início do século passado, alguns teóricos viam o cinema mudo como uma arte extremamente promissora. Pessoas incultas e crianças receberiam as mesmas mensagens que espectadores críticos. Era a arte democrática! (Isso para os estudiosos que consideravam o cinema como forma artística). Os filmes seriam capazes de romper com uma das maiores barreiras da humanidade, os idiomas, pois os signos usados na linguagem cinematográfica seriam universais: os olhares, os gestos, as expressões.
Porém o tempo passou e, enfim, chegaram os filmes sonoros. “O público falante dos filmes mudos transformou-se num público mudo dos filmes falados”. E o que há de mais curioso no primeiro filme falado da história do cinema, “O Cantor de Jazz” (1937), é o fato de que ele pode ser considerado um musical. É a história de um jovem judeu que sonhava ser cantor de jazz, gênero majoritariamente negro, e por isso é expulso de casa pelo pai, voltando anos mais tarde para cantar para a mãe boazinha tudo que viveu nesse meio tempo. Depois desse filme surgiram vários outros que contavam a história de cantores, usando as músicas para atrair o público, e não com a idéia de um “gênero musical”.
Mas então, o que afinal caracteriza esse gênero? Qualquer filmes que possui atores cantando? Não! Há vários outros elementos que devem ser levados em conta (embora posteriormente muitos deles tenham sido contestados e renovados por grandes nomes do estilo), tais como: dança coreografada, música como forma de expressão dos sentimentos dos personagens, romance e a música incidental (aquela que surge do nada e faz todos cantarem e dançarem ao seu ritmo). A maioria dos filmes também possui o que se chama de música não diegética, ou seja, aquelas em que a fonte que a produz não é apresentada, não há uma banda, um aparelho reprodutor de som ou um rádio em cena.
A Depressão que acabou com a depressão
Como dá para se imaginar lendo a sinopse de “O Cantor de Jazz”, o filme era altamente dramático, algo que vai contra a imagem que geralmente se faz de um filme musical, tido como um gênero leve. Essa mudança no teor dos textos se deu, por mais estranho que pareça, durante a Grande Depressão de 1929. Isso se explica ao pensarmos que o público da época clamava nos cinemas por algo mais romântico que a dura realidade que enfrentava. Daí os musicais melosos e com finais felizes, em sua maioria clichês, afinal, se a fórmula deu certo, por que não copiá-la?
Mas logo depois do sucesso veio a primeira crise do gênero, motivada por dois pontos: a Depressão, em si, que acabou afundando esse Titanic (Hollywood acreditava que era imune a crises) e o Código Hayes (1930), a censura estadunidense, que em 1934, com o órgão chamado “Breen Office”, passou a regular a produção e cortar qualquer cena que tivesse uma alusão ao sexo, chegando ao ponto de eliminar tomadas em que o casal principal conversasse em frente à uma cama. A censura, movida por grupos conservadores da sociedade, só acabaria em 1966. Com isso o gênero saturou, prova está que a MGM não produziu nenhum musical no ano de 1932.
Além disso, havia outro grande ponto: os musicais eram os filmes mais caros para produzir, na época. O equipamento de gravação de som ainda era precário, o que fazia com que qualquer tomada que precisasse ser refilmada custasse uma fortuna. Mas mesmo assim o gênero inovava a linguagem cinematográfica, pois poderia se dar ao luxo de ser um pouco experimental: a tela cortada em duas partes, para mostrar fatos que ocorriam simultaneamente; várias câmeras em uma plataforma, que deslizavam para acompanhar os dançarinos; o uso do foco para acompanhar algo que ocorria em outro plano; uso de novos ângulos para captar os acontecimentos… Os grandes astros dessa época foram Fred Astaire e Ginger Rogers, o casal que contracenou pela primeira vez, como coadjuvantes, no filme “Voando para o Rio” e, por terem roubado a cena, trabalharam em mais nove filmes em dupla, entre eles “O Picolino”(1935) e “Ritmo Louco”(1936). Enquanto isso, atrás das câmeras o grande nome foi Busby Berkeley, que trabalhou até com Carmen Miranda, na gravação de “The Lady in the Tutti-Frutti”.
No Brasil: As chanchadas
Pouco se pensa no Brasil, quando o assunto é filme musical. Porém tivemos, sim, uma grande produção nesse ramo. Por não ter recursos para fazer musicais à altura dos de Hollywood, os produtores e diretores brasileiros apelaram para as chanchadas, gênero que misturava carnaval, humor e música. Na década de 30, Adhemar Gonzaga chamou astros do rádio como Braguinha, Carmen Miranda e Ary Barroso para atrair público para seus filmes.
Na década de 40 e 50, o cinema brasileiro só tinha olhos para seus dois pupilos: Oscarito e Grande Otelo. Embora a produção das chanchadas tenha decaído na década de 70, quando as atenções se voltaram para as pornochanchadas (a música foi substituída pelo sexo como forma de apelo popular), o gênero se manteve e foi reavivado na década de 80, com Os Trapalhões, que faziam de dois a três filmes por ano, e continuavam a usar músicas.
Chega a “Época de Ouro” dos musicais
Desde o seu início, o gênero musical foi fortemente influenciado pelo teatro. Suas fontes de inspiração eram as operetas européias, os vaudevilles (peças teatrais populares, espetáculos de variedades) e, claro, os musicais da Broadway, avenida de New York conhecida por seus grandiosos shows de teatro. De lá vieram os artistas que representaram essa primeira fase, tais como os já citados Fred Astaire, Gingers Rodgers e Breadley. Filmes como “Rua 42” (1933) passavam-se nos bastidores da Broadway, enquanto outros faziam a transposição das peças dos palcos para as telas.
Com o tempo, porém, o cinema foi adquirindo certa independência. Mas na chamada “Época de Ouro” dos musicais estadunidenses, que foi de 1939 ao fim da década de 50, houve um retorno às origens. A Broadway estava em moda nas grandes telas novamente.
Foi a época dos musicais que são cultuados em grande escala até os dias atuais, tais como “O Mágico de Oz”, clássico infanto-juvenil do teatro transposto para o cinema em 1939 e que imortalizou a música “Somewhere Over The Rainbow” no imaginário mundial-popular e “Cantando na Chuva”, de 1952, considerado por muitos o melhor musical até os dias de hoje, trazendo Gene Kelly, o substituto de Fred Astaire, no papel principal, cantando. Dessa época datam outros dois grandes sucessos do ator: “Sinfonia de Paris” (1951) e “Um dia em Nova York” (1949), em que ele atua com Frank Sinatra.
A partir do fim da década de 50 a era dos grandes musicais estava com os dias contados. Dois fatores contribuíram para isso:
1 – o fim do Studio System: Desde o início de Hollywood, os grandes estúdios (MGM, Warner Brothers, Paramouth, RKO e 20th Century Fox) possuíam salas de exibição próprias. Isso lhes dava total controle sobre todas as etapas de produção, distribuição e exibição de seus filmes. O Departamento de Justiça estadunidense votou a favor das leis antitrustes, e isso atingiu exatamente esse ponto das grandes indústrias cinematográficas. Além disso, produtoras pequenas surgiam e produziam boas obras.
2 – a popularização da televisão nos Estados Unidos: Os canais televisivos tinham como fazer seus próprios musicais, logo, Hollywood só investia neles quando o lucro era certo, ou seja, quando eram grandes produções.
Pode-se dizer, então, que a década de 60 foi o fim dos musicais como eram conhecidos. Seus últimos suspiros foram os clássicos “Amor Sublime Amor” (1961), “Mary Poppins” (1964), “Minha Querida Dama” (1964) e “A Noviça Rebelde” (1965).
Depois disso a produção de filmes musicais entrou em crise novamente. O gênero foi mantido praticamente só pelo estúdio Disney.
Eu vou… eu vou… pra casa agora eu vou!
Walt Disney foi um visionário do cinema que investiu num ramo que até então ninguém tinha coragem: os filmes de animação. Foi o primeiro a colocar som em um desenho, no curta “Steamboat Willy” (1928), em que apresentou seu personagem mais famoso: Mickey Mouse.  E em 1937 apresentou o primeiro longa-metragem de animação da história, algo que foi considerado uma loucura, já que acreditavam que nenhum desenho seria capaz de prender um espectador na cadeira por 90 minutos. Walt Disney provou que estava certo. Assim estreou “Branca de Neve e os Sete Anões” (sim, assustem-se! Branca de Neve é a bisavó dos desenhos infantis!). A técnica nunca foi tão bem cuidada no cinema, visto que o trabalho de sintonizar as músicas e os gestos dos desenhos era grandioso. “Branca de Neve…”, além de ser inovador na linguagem, fez algo que nenhum outro filme com atores de carne e osso tinham feito até então: lançou sua trilha sonora comercialmente.
E é esse desenho que serviu de referência para todos os demais que lhe seguiriam: “Pinóquio” (1940), “Dumbo” (1941), “Cinderela” (1950), “Alice no País das Maravilhas” (1951) e etc, etc, etc.
Surgiram novos estúdios, novas tecnologias para animação, e o formato de animação-musical de “Branca de Neve e os Sete Anões” continua um sucesso até os dias atuais. E foi esse esquema que não deixou o gênero musical cair no esquecimento durante a crise ocorrida logo após a “Época de Ouro”.
Pink, Help! Os Reis tão fazendo um Iê Iê Iê
Obviamente grandes cantores e bandas perceberam o potencial dos filmes musicais para promoverem-se. O pioneiro foi Elvis Presley, que protagonizou 31 filmes em sua vida, a maioria grande sucesso de público e poucos sucessos de crítica. Seguiam quase todos o mesmo roteiro: Elvis era o galã que conquistava mocinhas em lugares paradisíacos cantando e dançando. Um mérito, porém, deve ser atribuído a ele: em seu filme “O prisioneiro do Rock” (1957), em uma cena em que ele bailarinos dançam em uma prisão totalmente teatral, Elvis faz o que pode ser considerado o primeiro vídeo-clipe do mundo.
Na onda do Rei do Rock veio o Quarteto de Liverpool. Com seu pseudo-documentário “Os reis do Iê Iê Iê” (1964), os Beatles colocaram mais lenha na fogueira da beatlemania. Logo após, em 1965, veio “Help!”, filme psicotrópico e nonsense, que assim como o supracitado filme de Elvis, serviu para serem retirados vários vídeo-clipes, como o que eles tocam a música título do filme com um piano no meio da neve.
O Brasil, mais uma vez, não foge à regra. Havia, também aqui, um artista antenado no potencial do cinema como forma de alavancar sua carreira: Roberto Carlos. Seus filmes, tais como “Roberto Carlos em ritmo de aventura” e “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa” seguem a mesma linha de “Help!”, com vilões perversos, perseguições improváveis, tudo como pretexto para “o Rei” cantar alguns sucessos.
Em 1982, Roger Waters, vocalista do Pink Floyd, inovou o gênero, fazendo um filme em que os artistas não são os personagens principais, mas sim as músicas, de forma que essas, sim, se encaixassem na narrativa. O filme chama-se “The Wall” e sua estrutura narrativa serve de base até hoje para musicais em que o principal é encaixar músicas de forma que fique um pouco coerente, tais como “Across the Universe” (2007), trazendo composições dos Beatles, e “Mamma Mia!” (2008), com a trilha da banda ABBA.
“O Show deve continuar!”
Desde “A Noviça Rebelde”, o gênero havia caído em uma nova fase de ostracismo. Era preciso uma grande renovação na linguagem para voltar a atrair o público, e quem fez isso foi Bob Fosse. Embora diga-se que ele possuía várias limitações como bailarino, como coreógrafo mostrou-se bastante eficaz em seus filmes “Cabaret” (de 1972, em que Fosse levou o Oscar de Melhor Direção, ganhando até de Francis Ford Coppola, com “O Poderoso Chefão”), “O Show deve continuar” (de 1979, também muito conhecido aqui pelo seu título original “All That Jazz”).
Mas o que esse homem mudou na linguagem dos musicais? Muitas coisas que pareciam ter sido gravadas em pedra desde a criação do gênero, tais como: não-inserção da música e da coreografia no campo diagético, ou seja, os números de dança são totalmente dissociados da trama da história; a não relação obrigatória das músicas com a subjetividade dos personagens; a visibilidade das fontes musicais e o fim dos obrigatórios finais felizes. Com essas alterações, não se via mais personagens que saiam dançando pelas ruas, acompanhadas de várias pessoas que, obviamente, sabiam as coreografias. E foram essas alterações na linguagem que o tornaram célebre.
Da Era de Aquário aos dias atuais

Bob Fosse mudou tudo, logo, foi necessário um tempo até Hollywood se adaptar às novas regras, ou melhor, falta delas. De 79 para cá surgiram muitos musicais, mas jamais uma nova onda deles. Podemos citar, por exemplo, “Hair!” (1979), de Milos Forman (diretor de clássicos como “Um Estranho no Ninho” e “Amadeus”) que se tornou o símbolo da geração hippie de 70 e, ao fazer uma dura crítica à Guerra do Vietnã, acabou com a idéia de que musicais eram filmes despreocupados com as questões de seu tempo.
Ainda no fim da década de 70 vieram filmes como “Embalos de um sábado à noite” (1977) e “Grease – Nos tempos da Brilhantina” (1978), que impulsionaram o fenômeno das discotecas. Em 83 é lançado “Flashdance” e em 87 “Dirty Dancing” filmes bastante cultuados até hoje. No Brasil, em 86 é lançado “A Ópera do Malandro”, considerado por muitos o melhor musical nacional.
A década de 90 foi bastante fraca, destacando-se, talvez “Evita”, que por ser estrelado por Madonna, arrastou multidões ao cinema.
E agora, nos anos 2000, os musicais parecem estar lentamente renascendo. Embora os maiores públicos sejam filmes como “High School Musical” (2006) e suas eternas continuações que, em minha opinião, denigrem todo o gênero, e existam filmes bastante medianos, como as regravações “O Fantasma da Ópera” (2004) e “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005) e ”Sweeney Todd”, há uma nova geração de musicais que fazem jus à importância do estilo para a história da arte de fazer cinema, tais como “Chicago” (2002), “Apenas uma Vez” (2006) e “Moulin Rouge!” (2001).
Esse último pode ser considerado uma grande homenagem ao gênero. Há claras referências a vários musicais durante o filme: Satine, personagem de Nicole Kidman, em sua primeira cena canta “Diamonds Are A Girls Best Friend”, que em “Os homens preferem as Louras” (1953) é cantado por Marilyn Monroe; Durante uma bebedeira de absinto, Christian, interpretado por Ewan McGregor, enxerga uma visão erótica da Sininho, personagem da animação-musical “Peter Pan” (1953); Mas a referência mais clara talvez seja a reprodução da cena de Gene Kelly rodopiando em torno de um poste, em “Cantando na Chuva”, que Christian, no meio de uma música faz em torno da Torre Eiffel. Enfim, há, sim, ótimos musicais contemporâneos!
O gênero musical não foi importante somente pelas inovações tecnológicas, de linguagem e narrativas que trouxeram para o cinema! Foram muito além disso! Os musicais entreteram, divertiram, emocionaram e fizeram pensar gerações e mais gerações pelo mundo todo.
Filmes musicais: A mais popular das artes em sua forma mais complexa.
Contar histórias pode até ser fácil! Mas cantá-las…

MÚSICA PARA OS OLHOS, pelo viés de Felipe Severo

Fonte: Revista O Viés